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Auditório
do Centro Cultural Banco do Brasil
Realizado
em 02 de outubro de 2001
Antonio Araújo
(Diretor Teatral e prof. da ECA/USP)
Mário
Bortolotto (Dramaturgo,
Diretor e Ator)
Beth Néspoli (Jornalista
do Caderno 2 do Estado de S. Paulo)
Kil Abreu (Jornalista,
Pesquisador e Crítico Teatral da Ilustrada da Folha de São
Paulo)
Sebastião Milaré (Pesquisador
e Crítico Teatral e Diretor da Divisão de Artes Cênicas e Música
do Centro Cultural São Paulo)
Performance:
“Antes da Fronteira” com Joeli Pimentel e Mário Bortolotto
- Exercício de dramaturgia de Mário Bortolotto sobre foto de Sebastião
Salgado.
Local:
Saguão do CCBB
Antonio
Araújo
Professor
de direção teatral no Departamento de Artes Cênicas da Escola de
Comunicações e Artes (ECA) da USP. No Teatro da Vertigem, grupo
que criou em 1992, dirigiu oParaíso Perdido (na Igreja Santa
Ifigênia),O Livro de Jó (no Hospital Umberto Primo) eApocalipse
1,11 (no Presídio do Hipódromo). Em 95, ganhou com o espetáculo
O Livro de Jó os prêmios de melhor diretor APCA, Mambembe, Shell e
Apetesp. Pelo espetáculoApocalipse 1,11 ganhou o Shell 2000
de melhor diretor. Ganhador da bolsa Fellowship of the Americas,
concedida pela The John F. Kennedy Center for the Performing Arts
(Washington, EUA, 1996), através do qual realizou estágios com diretores
como Joanne Akalaitis, Andrei Serban, Joseph Chaikin, Robert Wilson,
Anne Bogart e Richard Foreman, entre outros, tendo ministrado palestras
sobre direção teatral e teatro brasileiro, nos departamentos de
teatro da Julliard School e Columbia University (1996-1997).
Mário
Bortolotto
Dramaturgo,
Diretor, Ator, Sonoplasta e Iluminador. Ganhador do prêmio Shell
de melhor autor/2000 porNossa Vida Não Vale um Chevrolet
e do prêmio APCA pelo conjunto da obra. Diretor do grupo de teatro
Cemitério dos Automóveis. Tem 19 textos de teatro publicados em
três volumes. É autor de, entre outras,Medusa de Ray Ban, Diário
das Crianças do Velho Quarteirão e Postcards de Atacama. Escreveu
sobre cinema, teatro, música, literatura, histórias em quadrinhos
e futebol para os jornais Folha de londrina e Correio Londrinense.
Gravou o CDCachorros Gostam de Bourbon com composições suas. Publicou também os livrosMamãe Não
Voltou do Super Mercado (romance) ePara os Inocentes que
Ficavam em Casa (poesia).
Beth
Néspoli
Jornalista
do Caderno 2 do Estado de São Paulo.
Kil
Abreu
Jornalista,
diretor e pesquisador teatral, pós-graduando em Artes Cênicas pela
Escola de Comunicações e Artes da USP, onde desenvolve a pesquisa
de mestrado Manifestações do Poético no Drama, a partir da obra
de Garcia Lorca. Foi um dos fundadores da Cia. do Latão e um dos
editores da revista Vintém - Ensaios para um Teatro Dialético. Atualmente é coordenador
da Escola livre de teatro de Santo André e Crítico da Folha de São
Paulo.
Sebastião
Milaré
Crítico
e pesquisador de teatro. Diretor da divisão de Artes Cênicas e Música
do Centro Cultural São Paulo. Autor de Antunes Filho e a Dimensão
Utópica (Perspectiva, 1994); A Batalha da Quimera - Renato Vianna e o Modernismo Cênico Brasileiro
(Perspectiva, no prelo);A Trupe Futurista Conta o Bumba-Meu-Boi
Modernista (peça teatral comemorativa dos 70 anos da Semana
de Arte Moderna, direção de Gilberto Gawronski, Centro Cultural
Banco do Brasil, Rio de Janeio, 1992); A Solidão Proclamada (peça teatral adaptada para coreografia e dirigida
por Sandro Borelli, Teatro da Cultura Inglesa, São Paulo, 1998).
Dramaturgista do espetáculo Quem Come Quem, direção de Stephan
Stroux, com atores e músicos dos sete países de língua portuguesa
(Teatro Gil Vicente, Coimbra, 2000). Colaborou em diversas publicações
do Brasil e do exterior, destacando: Revista artes (São Paulo); Revista USP;
Travessia (editora da UFSC); O Estado de S. Paulo; Diógenes
- Anuário Crítico del Teatro Latinoamericano (EEUU); revistaTeatro
Celcit (Argentina); Humbodt (Alemanha); Sete Palcos (Portugal);
Mindelact Teatro em Revista (cabo Verde);BT-Bijutsu Techo
(Japão).
Leia
o novo texto de Sebastião Milaré:
"A
função da crítica teatral no novo século"
A
crítica é inerente à produção
da cultura dramática. Não se pode imaginar o desenvolvimento
de um teatro nacional sem o respaldo de intelectuais conhecedores
da arte, capacitados à análise e discussão
do fenômeno estético. Sob esse ponto de vista, a crítica
tem função analítica e organizadora das diferentes
correntes de pensamento que incidem na produção dramática.
Isso não se altera com a mudança do calendário
e permanecerá valendo no século que se inicia. O que
me parece importante discutir é o espaço da crítica
nas novas conjunturas e em face das tecnologias que transformam
radicalmente os meios de comunicação.
Por
tradição, temos a imagem do crítico ligada
a um periódico, à coluna de um diário ou semanário,
e sua função confunde-se em certa medida à
do jornalista: informa o leitor sobre a qualidade do espetáculo.
Isto é verdadeiro... ou melhor, é uma meia verdade.
O jornalista ao redigir a notícia deve ser objetivo, ater-se
ao fato e não interpreta-lo; deve ser tão imparcial
quanto possível. Já o crítico é também
objetivo, mas interpreta o fato (no caso, a obra colocada em cena)
e é apenas relativamente imparcial, já que a apreciação
da obra cênica tem muito de subjetivo, representando antes
de tudo um ponto de vista - o ponto de vista do crítico.
Diferenças que separam nitidamente a função
do crítico à do jornalista, embora nada impeça
que uma pessoa exerça ambas as funções com
muita competência.
O problema
dessa imagem do crítico é que o afasta do criador
cênico para aproxima-lo do leitor do periódico. Numa
simplificação, apenas o leitor seria o interlocutor
do crítico, dificilmente o artista. Isto leva à crença
de que crítica desfavorável ao espetáculo determina
o fracasso do mesmo; assim como crítica favorável
engorda a platéia. Crença que, no Brasil, é
sistematicamente negada pela realidade: muitos espetáculos
francamente repudiados pela crítica tornam-se triunfos de
bilheteria e outros, elogiados pela crítica, ficam com as
salas vazias de espectadores. Então a crítica é
uma inutilidade? Certamente, como inútil é a própria
arte. E quanto mais gratuita for, quanto menos estiver "a serviço"
do que quer que seja, mais próxima estará de trazer
grandes benefícios à sociedade.
Já
ouvi vários críticos - e dos bons - colocarem-se como
"espectadores privilegiados". Permito-me discordar deles.
Na verdade, o bom crítico domina um instrumental teórico
que pouco espectador possui, e tem o olho treinado para ver sutilizas,
movimentos e gestos cênicos, conseguindo imediatamente relaciona-los
à obra ou ao pensamento poético que os inspira ou
que se pretende materializar cenicamente. Dessa relação
é que nasce o ponto de vista crítico. Assim, o crítico
é um especialista e não um "espectador privilegiado".
Vê o espetáculo como um pensamento transformado em
imagens, sons, movimentos, luzes, e discute esse pensamento. Sua
interlocução com o leitor do diário é
positiva. Não qualquer leitor, certamente, mas aquele que
tem algum interesse pela arte. A leitura constante de boas críticas
ajudará esse leitor a educar a sensibilidade, a desenvolver
capacidade analítica, habilitando-se à perfeita fruição
do produto estético - deixa de ser mero "consumidor".
Sendo
pessoa capaz de ler e discutir o pensamento veiculado pela obra
(ou o pensamento que é a obra), outro importante interlocutor
do crítico é o próprio artista, o criador cênico.
A relação entre esses personagens é sempre
complicada, pois implica a imagem que cada um faz de si mesmo e
do seu trabalho. Às vezes tal relação desanda
em agressões. Mas, sobra, inevitavelmente, a reflexão
expressa na crítica que, de uma maneira ou de outra, oferece
algum subsídio ao criador. E esse fato exprime, no contexto
do teatro atual, novos campos e novos espaços onde a atuação
do crítico está muito mais próxima à
do criador, estabelecendo novos modos de diálogo.
Nesses
novos espaços, ainda não suficientemente explorados
nem resolvidos, surgem duas figuras que nem sempre são encarnadas
por críticos, mas cujas funções estão
absolutamente vinculadas ao exercício crítico: a do
dramaturg ou dramaturgista e a do programador. A primeira tem ligação
orgânica com o trabalho criativo, na medida em que busca junto
dos criadores cênicos estabelecer perspectivas para a interpretação
da obra. A segunda, faz ponte entre a criação estética
e o público, buscando captar a dinâmica da produção
teatral e organizando sua mostra em determinados locais.
No
Brasil, há pelo menos duas décadas, proliferam festivais
ou mostras competitivas, em cidades do interior, alguns de âmbito
nacional, onde críticos (embora nem sempre críticos)
são contratados como membros de comissão julgadora,
tendo que debater com os artistas e o público cada obra apresentada.
Constitui um exercício estimulante da crítica imediata,
direta, provocando um diálogo proveitoso tanto para o crítico
quanto para os criadores, também para o público presente
e, muitas vezes, participante do debate.
Desse
modo, vemos ampliarem-se os espaços da crítica, embora
construídos caótica e irregularmente.
Os
periódicos, hoje, parecem ameaçados pela Internet.
Mas seria um exagero estimar a "morte" da imprensa diária,
como foi exagero estimar que o cinema mataria o teatro e, depois,
que a televisão mataria o cinema. Mais legítimo seria
louvar o aparecimento de um novo meio para veicular idéias.
Surgem na rede sites noticiosos, abrigando links de crítica
teatral. Porém, quase sempre, esses sites reproduzem no novo
meio linguagens e critérios da imprensa diária, confinando
a reflexão crítica a planos secundários. A
Internet, no entanto, é um meio generoso, amplo, democrático,
e poderá vir a ser importante espaço à reflexão
crítica, com sites dirigidos ao público interessado
na arte, sem restrições nem condicionamentos editoriais.
Creio
que a função da crítica teatral neste novo
século continua essencialmente a mesma, porém dinamizada
e difundida por novos espaços. Justamente esses novos espaços
é que devem ser avaliados, otimizados, de modo que a crítica
possa readquirir seu sentido didático, provocador e criativo.
A
crítica teatral frente às novas tendências cênicas
Ao
longo do século 20 a encenação foi adquirindo
autonomia, separando-se da literatura, da qual tradicionalmente
era entendida como subproduto. As revoluções dos conceitos
cênicos desde Antoine até Brecht, passando por Paul
Fort, Gordon Craig, Stanislavsky, Meyerhold, Komisarjevsky, Artaud
e tantos outros, abriram horizontes que foram exaustivamente explorados
por criadores no mundo todo, depois da Segunda Guerra, incidindo
em novos paradigmas, novas linguagens, conferindo à encenação
peculiaridades que a tornam um tipo de expressão singular,
único, provido de dinamismo próprio. Sem dúvida
o texto dramático continua sendo um dos fundamentos do teatro,
mas deixou de ser o fundamento.
Por
outro lado, encenadores geniais, que dominam códigos estabelecidos
e os transgridem, revelam valores no texto dramático que
o crítico e o ensaísta tradicionais não conseguiam
vislumbrar. A liberdade de desconstruir e reconstruir, marca da
encenação contemporânea, possibilita a exploração
desses valores numa viagem para dentro da obra, examinada e vivenciada
na prática cênica e não apenas com o instrumental
teórico do ensaísta. São procedimentos e códigos
novos que desvendam horizontes insuspeitados em peças de
Shakespeare, por exemplo. No Brasil, a obra de Nelson Rodrigues
era depreciada, vista como comédia de costumes com fortes
tonalidades pornográficas, até o encenador Antunes
Filho desvendar suas potencialidades poéticas ao reunir quatro
peças do autor no espetáculo Nelson Rodrigues, O Eterno
Retorno, reafirmando a condição mítica dessa
obra com Paraíso, Zona Norte. A técnica de Antunes
Filho no trabalho com o texto representa tendência já
consolidada no teatro brasileiro -- faz uma cirurgia na peça,
buscando através da pesquisa e do estudo seus elementos essenciais,
dispensando os dados acessórios, ilustrativos, os comentários
paralelos, para trabalhar os aspectos nucleares do drama. Técnica
que exige do encenador grande conhecimento da arte, pois não
se trata de simplesmente "cortar" o texto, mas de revelar
a poesia: elimina partes supérfluas para desvendar a estrutura
poética.
Outra
tendência marcante do teatro brasileiro atual dispensa as
formas arquitetônicas tradicionais e concretiza o drama em
espaços inusitados. Há, nessa linha, o trabalho radical
de Ricardo Karman, que leva o espectador para dentro de um túnel
em construção, muito profundo, com a extensão
de 800 metros, passando sob um rio; em outra encenação,
utiliza aterro sanitário, teatro em ruínas, floresta
e represa, conduzindo os espectadores a esses locais em ônibus,
num trajeto de aproximadamente 140 quilômetros. Ou o trabalho
de Antônio Araújo, que torna os próprios espaços
protagonistas do drama. As três obras realizadas por Araújo
nessa linha - Paraíso Perdido (em igreja), O Livro de Jó
(em hospital) e Apocalipse 1,11 (num presídio) - são
exemplos eloqüentes de diálogos da encenação
com o espaço, estabelecendo novo conceito de ação
dramática.
Ponderável
também a incidência de tentativas da fusão de
teatro com dança, onde o diálogo da dramaturgia com
a coreografia funde códigos das duas áreas criando
nova linguagem. Com Domésticas, Renata Melo realiza um discurso
inovador, atestando a viabilidade dessa idéia que reduz,
tanto o texto dramático quanto o desenho coreográfico
convencionais, a suportes da linguagem cênica.
E assim
o teatro se reinventa a cada passo, exigindo do crítico novas
posturas, novas maneiras de se relacionar com a obra e nova ética.
Não faz mais sentido a crítica que se prende ao texto
como um náufrago a um pedaço de madeira, passando
rapidamente sobre as questões da encenação.
E também não faz mais sentido o crítico que
se mantém afastado do fazer teatral cotidiano, como se a
relação direta com os criadores fosse conspurcar o
seu trabalho. Não faz mais sentido fechar-se numa interpretação
teórica do original e não admitir que possa haver
diferentes leituras da obra, considerando "um erro" qualquer
interpretação diferente da sua. O crítico contemporâneo
tem que soltar as amarras, deixar-se conquistar pelo dinamismo do
teatro, admitir a contradição como matéria-prima
do pensamento dramático em sua materialização
cênica.
Evidentemente
o texto continua sendo um grande referencial da criação
cênica, mas interessam igualmente os processos criativos,
os meios pelos quais o artista procura atualizar os velhos textos
e, com eles, desvendar novos horizontes, novo entendimento do ser
humano, da condição humana. Mas o próprio processo
pode, muitas vezes, implicar a dramaturgia, dispensando o texto
formal ou convencional.
O
crítico contemporâneo precisa aceitar os desafios desse
teatro. Precisa dialogar com os criadores, informar-se dos processos.
Só assim evitará o risco de confundir um dado novo
com modismo e enaltecer modismos como inovações. O
polêmico Antunes Filho desabafou certa vez, frente a confusão
de conceitos de alguns críticos em comentários sobre
montagens suas: "Não se pode ver os novos paradigmas
com o olhar velho". E essa é uma grande verdade. (Sebastião
Milaré)
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