“30a. Bienal, uma visão parcial” José Henrique Fabre Rolim jhenriquefabrerolim@hotmail.com A Bienal de São Paulo em suas trinta edições desde 1951, mais de seis décadas de existência reflete todas as transformações ocorridas na arte, revoluções marcantes que delinearam novos conceitos e horizontes. A grande mostra “30X Bienal – Transformações na Arte Brasileira” aberta recentemente no pavilhão da Bienal no Parque Ibirapuera, faz um corte dessas décadas que revelaram linguagens e confrontos expressivos, a partir do concretismo passando pela abstração informal, pela pop arte, pela arte conceitual e por tantos movimentos que foram decisivos para a modificação da cena artística brasileira nesses últimos tempos. Uma das forças motrizes da Bienal é a concretização dos intercâmbios artísticos com o que acontece no mundo. Reunindo 250 obras de 111 artistas posicionados nos dois últimos pisos do pavilhão da Bienal, após uma seleção difícil feita pelo curador Paulo Venâncio Filho. As exclusões não agradaram a vários participantes das Bienais. Deve-se frisar que foram mapeadas 5.800 participações brasileiras ao longo de todas as edições, algumas, aliás, bem polêmicas. Sintetizar um percurso complexo repleto de confrontos e distorções históricas não é uma tarefa simples, pois, na realidade se concentrar somente nos artistas brasileiros que sofreram influencia da tantos expoentes da arte internacional presentes no decorrer das trinta edições da Bienal deveria ser o resultado de uma pesquisa bem profunda. A atual mostra ficou na superfície, vários nomes representativos de períodos marcantes foram esquecidos, e mesmo capítulos especiais como a Grande Tela na 18º Bienal (1985) ou a magnífica sala de arte correio (mail art) que aconteceu na 16º Bienal (1981), ocupando uma área enorme, metade de um piso, tendo como curador Julio Plaza, com três mil metros de parede, sendo paulatinamente preenchidas à medida que as cartas chegavam, respondendo ao convite da Bienal, aliás, um movimento importante que deslanchou na busca de novas linguagens. Pretendendo dar um sopro vital na memória artística, a atual mostra trouxe obras expressivas como a instalação “Ondas das Paradas da Probabilidade” (1969) de Mira Schendel , um dos grandes destaques do evento. Outra obra que causa impacto é a “Bolha Amarela”, inflável de Marcelo Nitsche, exposta na 10º Bienal (1969), localizada logo na entrada. A montagem arquitetônica da mostra teve Felipe Tassara como responsável que optou por uma linha mais aberta ao mesmo tempo realçando a arquitetura de Niemeyer que em certos ângulos concorre magistralmente com as peças expostas. Pensando bem a mostra faz um resumo bem restritivo do passado da Bienal, fica uma sensação da algo incompleto, sombreado por um vazio que já fez parte de uma temática anterior. A exuberância dos anos 50, a revolução dos anos 60, a contestação dos anos 70, a agonia dos anos 80, a retomada dos anos 90, os críticos confrontos das primeiras décadas dos anos 2000, não ecoam com a devida força, predomina uma releitura pausada que pouco acrescenta. O visitante percorre a mostra ao fluir de uma poética inflada por valores consagrados, a maioria com uma obra, outros com criações que causam uma atração especial como no caso de Regina Silveira e Lucia Koch. Enquanto certos valores como Hélio Oiticica e Lygia Clark se destacam pelo caráter visionário de suas obras que transformaram a linguagem e influenciaram várias gerações. As obras de Maria Martins, Antonio Dias, Amilcar de Castro também se destacam no conjunto geral como tantas outras, além é claro dos primorosos concretistas posicionados na sala climatizada do terceiro piso. No catálogo, porém, as agitadas fases vivenciadas pela Bienal ficam mais destacadas com uma série de textos críticos que espelham os debates e as discussões de rumos e temas polêmicos sugeridos no decorrer das décadas. Conclui-se, portanto, que mesmo com as falhas ou faltas, a mostra deve ser visitada e analisada, uma ótima oportunidade de rever períodos inesquecíveis, problemáticos, polêmicos, poéticos, contestadores, buscando os detalhes e preenchendo as lacunas, talvez uma interação a revelar na memória de cada apreciador a complexidade do ser humano refletida sempre na criatividade artística. As releituras são essenciais para se compreender o passado e avançar no presente, a arte tem um grande potencial na interpretação de um momento histórico, em termos pessoais ou universais, cabe a cada um encontrar seu caminho, religar os ícones revolucionários artísticos e desfrutar de um prazer analítico, observando as transformações estéticas, conceituais e poéticas de um mundo que se expande ao romper as fronteiras.
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